Como falar da dimensão simbólica de Nelson Mandela, nascido no dia 18 de Julho de 1918 e falecido no dia 5 de Dezembro de 2013, 95 anos depois?

Não é fácil neste ambiente de concurso internacional de frases bonitas sobre Madiba, nominho de origem étnica para expressar carinho e respeito.

Mesmo assim, podemos mostrar no seu currículo de homem extraordinário uma vida de luta por altos valores como a liberdade, a igualdade e a justiça. Passou 27 anos nas masmorras do apartheid, onde estudou e aprendeu a ver fundo e longe. Nascido numa aldeia de analfabetos e na terra do racismo, notabilizou-se como advogado revolucionário.

Conspirou contra a vontade dos seus próprios companheiros do ANC, Congresso Nacional Africano, e foi o primeiro presidente negro eleito num país de maioria negra. Que mais? Foi Prémio Nobel da Paz, promotor da nação Arco-íris, deixou a Presidência da República pelos seus próprios pés no auge da popularidade, procurou reconciliar a raça humana sem punir, não roubou, nem mentiu. Tenho saudades de Madiba.

E o legado de Nelson Mandela? O que há de mais admirável nessa herança é a capacidade de defender a verdade e a igualdade, custem o que custarem. Este exemplo atingiu dimensão universal num mundo reconhecidamente em crise de valores, tais como a verdade, o trabalho e a solidariedade.

Cai o apartheid sem arrastar na totalidade a desigualdade social

Mas, caiu o Apartheid na República da África do Sul sem que tenha diminuído drasticamente a desigualdade social. É verdade, a harmonização não subiu bastante. Mas abriram-se vias de igualdade e construíram-se bases para combater a discriminação estrutural: educação de brancos, negros, amarelos e mulatos; leis e práticas anti discriminação baseada no sexo e na idade; desmantelamento da arma atómica; lei da terra; liberdade de circulação, etc.

Apesar disso, existem as barracas do desemprego, da droga e do crime, mas a grande diferença é serem barracas de todas as cores. As tendências estão a mudar.

Ainda existem uma minoria branca rica e uma maioria negra pobre? É verdade e a violência urbana tem aumentado. Em matérias como a transformação cultural e social, as tendências valem mais do que os factos. Proporcionalmente, ainda existem muito mais brancos ricos do que negros, mas o combate pelas reformas estruturais está em curso. E é evidente que hoje em dia as resistências não vêm somente dos brancos.

Mandela quis mostrar que o ódio ou o amor, a corrupção ou a transparência, a violência ou a paz não têm cor nem religião!

Com maior ou menor intensidade e coerência, os governos da África do Sul de depois do apartheid têm lutado pelas condições de igualdade e justiça. Mas a luta pelo poder não vai acabar, nem os operários, nem os patrões. A Constituição e a Democracia não fazem milagres mas protegem os cidadãos. Mandela disse uma vez que a melhor coisa que aprendeu durante os 27 anos de prisão foi pensar o médio e o longo prazo.

Mandela uma inspiração

Mandela é ainda uma garantia de estabilidade para a África do Sul?

Suponho que ninguém tem resposta definitiva para esta pergunta crucial mas posso afirmar que, enquanto símbolo poderoso, Nelson Mandela é uma inspiração. É certo que o símbolo confronta uma realidade económica, social e cultural dramática. No próximo ano haverá as primeiras eleições legislativas na ausência de Nelson Mandela e a maioria dos eleitores não conheceu os horrores do apartheid.

Mandela reúne uma espécie de consenso universal. Porque será? Sim, esquerda, centro e direita; laicos, teocráticos e ateus; ricos, pobres e remediados; amarelos, brancos, negros e mulatos. Aqui temos de tudo, da referência genuína à diplomática, digamos assim.

Explicando-me melhor, pergunto o que pensavam e faziam durante os 27 anos de prisão de Nelson Mandela alguns dos que hoje dizem as frases mais bonitas que se pode imaginar. Não importa, a explicação é o carácter inspirador do líder.

E o fenómeno da Verdade e da Reconciliação, conduzida pelo Reverendo Desmond Tutu? O bispo Desmond Tutu é alma gémea de Madiba. Ele acredita no que pensa sobre o ser humano e faz o que pensa. Sob a sua liderança a Comissão Verdade e Reconciliação (CVR) abriu um precedente e teve um enorme sucesso. Veja-se que a missão era apurar a verdade e com base nela promover a reconciliação. Não tinha fins punitivos.

Mandela abraçou o bem e de Klerk rejeitou o mal

Como ler a atribuição do Prémio Nobel tanto a Mandela como a Frederick de Klerk? Foi justo do ponto de vista moral e estrategicamente correto. De Klerk também viu longe, compreendeu a natureza imbatível das reivindicações de Nelson Mandela e do Povo sul-africano e colaborou na transformação do regime. Em defesa da Paz, o Nobel foi muito bem atribuído a dois grandes líderes: Mandela abraçou o bem e de Klerk rejeitou o mal. Ambos foram corajosos.

África Austral e o efeito Mandela? Diga-se em abono verdade que o primeiro a ser influenciado foi o apartheid. Concretamente o MPLA, a FRELIMO, a SWAPO, e a ZANU foram os grandes aliados do ANC e de Nelson Mandela. De um modo geral, os MLN das colónias portuguesas. Agora sim é a vez de toda a sub-região estar atenta à evolução de um dos motores de África que é a República da África do Sul.

O significado do "Soccer City"

O caso da vaia na Cidade do Futebol ao Presidente Jacob Zuma? Não foi uma vaia qualquer. O senhor Zuma está longe de ter o perfil de Nelson Mandela e existe um grande mal-estar social na RAS. Além da desigualdade económica, a questão da terra, o desemprego, o racismo tradicional e o novo, etc., a vaia no Soccer City pode ter alto significado político e diplomático.

Existe um mal-estar crescente e uma degradação da imagem pública do Presidente Zuma,que é suspeito de insensibilidade em relação às dificuldades do povo, de falta de rigor no uso de bens públicos e de ter dificuldades em separar o interesse pessoal do interesse público. Por outro lado, o ANC é uma aliança de diversos partidos e movimentos políticos.

As principais dificuldades actuais da África do Sul? A frustração ocupa o lugar das grandes espectativas e as reformas desaceleram desde a Presidência de Mandela. O ritmo de transformação social é o principal problema da RAS.

Mandela e Cabral a persistência numa luta

O processo da democratização da África nesta nova era pós Mandela…

O legado de Nelson Mandela vai além do seu tempo e da sua ação. O exemplo entrou no coração de milhões de africanos. A democratização de África é difícil e lenta.

O ponto da situação da África em termos do cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento do Milénio? O desempenho de África na realização dos ODM é insatisfatório, mas, em geral, os objetivos fixados pela ONU não são cumpridos. A dinâmica criada é que vale.

É possível fazer um paralelo entre Amílcar Cabral e Nelson Mandela? É. Ambos pertenceram à geração que nunca desistiu de lutar pela independência de África. Com cinco anos de diferença (1918-1924), Mandela e Cabral foram grandes cabeças e grandes líderes, com uma outra diferença importante: Mandela viu renascer a Nação e exerceu o poder, Cabral não.

Mas Gérard Chaliand, jornalista e historiador francês, conta o seguinte diálogo na sua biografia: Gérard – Mandela, dizem que entre os líderes dos Movimentos de Libertação Nacional do nosso tempo você é o maior. Mandela: “Não, estás enganado, o maior é Amílcar Cabral”.

Verdade ou mentira, este episódio confirma a grandeza de ambos.