Compôs uma música em tributo a um compadre. Na hora “H” muda o refrão, coloca seu nome por receio à zanga do compadre.

Este é uma breve história de um octogenário que sonha com Cd.

Sapateiro e clarinetista de mão cheia amante da música e criatividade... um notável clarinetista cabo-verdiano, de nome Cesário Duarte, formado na escola de Nhô Reis, foi condiscípulo de Manel Clarinete, Luís Morais, Morgadinho, Manel de Ti Djena entre outros.

 Nasceu a 26 de Fevereiro de 1932 em S. Nicolau, filho  de Francisco Custódio Duarte e de Maria Júlia Monteiro Duarte.Deixou o berço aos 12 anos para se fixar em S. Vicente, e  vive, hoje, no bairro Eugénio Lima, na cidade da Praia. Aos 80 anos ainda alimenta um forte desejo: gravar um Cd como testemunho da sua capacidade criativa. Lembra-se? É mais fácil para si se for apresentado por ... Cesário Boca, Nariz de Clarinete?

Uma história que envolve um compadre a ser desfiado ao longo desta entrevista.

CultuKriol - Porque deixou a ilha da sua origem?

Cesário Duarte - Tinha ficado em S. Nicolau entregue a cuidados familiares, mas a minha mãe entendeu  mandar buscar-me para poder continuar os estudos.

CK - Conseguiu integração na comunidade sanvicentina enveredando-se para o mundo da música?

CD - Quando cheguei a Mindelo, comecei a estudar. Recebi influências daquele ambiente cultural que na altura era extraordinário. Estávamos no ano de  1948 quando contactei o maestro senhor Reis. Comecei a aprender e já em 1950  fiz a minha estreia na banda municipal de S. Vicente.  

Tudo começou com o espectacular Ti Fefa

 

CK - Como é que recebeu influências a ponto de ter entrado no mundo artístico?

CD - É curioso o que vou contar. Ainda menino-moço, estava na zona de Monte Sossego, era um domingo e jogava à bola. De repente um senhor, chamado Ti, fez uma aparição miraculosa executando o seu clarinete. Ele regressava de um “pquinique” acompanhado de uma multidão. Havia pessoas de todas as categorias sociais. E foi deveras um espectáculo: pessoas a dançar com garrafa de aguardente à cabeça, jovens, adolescentes, velhos… enfim. Da forma como Ti Fefa exibia o seu clarinete, fiquei empolgado e, nesse mesmo dia, contactei o senhor Reis. Foi Manel Clarinete meu colega e amigo quem me levou. Quando lá cheguei, fiz a minha inscrição e lá permaneci até altura em que tive de vir fixar residência na ilha de Santiago.

CK - E na Praia deu continuidade à sua vida artística?

Do Mindelo a Praia num jogo entre clarinete e sapatos

CD - Quando cheguei fui fixar residência na então vila de Assomada. A minha vida profissional (sou sapateiro) e a minha carreira artística estavam quase na linha de incompatibilidades. Vim à Praia porque não queria sacrificar a música. Encontrei-me com Jorge Cornetim, e ele inscreveu o meu nome no Vogal de pelouro, era uma sexta-feira – 24 de Novembro de 1952. Fui admitido e logo no domingo, actuei na banda dirigida pelo famoso Jorge Cornetim ou Jotamont como prefere.

CK - Porquê o clarinete como instrumento da sua eleição e não outro qualquer?

CD – O senhor Reis viu os meus dedos e disse-me que  eu  tinha dedos talhados para  clarinete. Mas devo confessar que não foi uma imposição, pois a minha sensibilidade sempre foi clarinete, instrumento que eu aprendi a gostar durante o tal passeio de que  já falei. Com o tempo, fui  simpatizando com o Sax, mas o senhor reis também insistia que eu era homem de  clarinete. A verdade é que durante um mês na Banda fui executante do Sax- tenor. Hoje julgo ser executante do Sax e do Clarinete.

Ambiência social terreno fértil para compositores

CK - Na Escola de Música foi condiscípulo de Manel Clarinete, Manel Ti Djena, Luís Morais entre outros vultos da nossa música?

CD - Manel Ti Djena meu primo, Duca de Nho Pitra, Augusto Morais, Luís Morais, Morgadinho foram todos meus colegas. Mas quem me levou a entrar na Escola de Nhô   Reis foi Manel Clarinete.

CK - A partir de uma certa altura aparecem na discografia cabo-verdiana vários temas de Cesário Duarte. Como é que começa nas lides da composição?

CD - De ponto vista social, Cabo Verde era um terreno culturalmente fértil. Havia bailes e toda aquela ambiência acabava por contagiar os espíritos criativos. Fui observando, ironizando artisticamente, e claro está, tornei-me num compositor popular, com temas arrancados de forma hábil no quotidiano de todos nós.

Cesário Boca, nariz de Clarinete dedicado ao amigo Manel

CK - Que composições arrancados do fundo da sua alma que mais lhe agrada?

CD - Cesário ê boca- um tema sem dúvida popularíssimo, basculante, menininha di poca sorte (…). Enfim, eu tenho várias composições, e só através de um concentrado esforço de recuperação estaria apto a recordá-los todos. Esta entrevista é uma surpresa … julgava que não fazia parte mais do clube dos nossos compositores.

CK - Mas faz. A propósito de Cesário Boca, a música ... Você não tem nariz de clarinete ou tem?

CD – Tratou-se de uma simples brincadeira. O meu amigo Manel Clarinete ia casar-se. A minha intenção era pregar-lhe uma partida no dia do casamento e fiz esta música. Porém, fiquei desconfiado de que poderia zangar-se, pois a ele me referia como malandro, como está estampado no verso: “tchapu, tchapu djan pega malandro”. Receoso da sua reacção, fiz questão de, em cima da hora, mudar o nome e recorri ao meu.

CK -  A música não ...?

CD - E a musica foi tocada no acto do seu casamento, e esta música ficou com a minha  marca. Muitos já a cantaram, Paulino Vieira, Gardénia Benró, entre outros. É  uma coisa engraçada, e fico feliz por ter conseguido tal proeza. Muitos me tratam por Cesário Boca, Nariz de Clarinete, mas é tudo brincadeira, até porque a minha boca é pequena bem como o meu nariz.

CK - Como compositor qual o diálogo artístico estabelecido com Manel Clariente?

CD - É claro que isto aconteceu de forma artística. Somos amigos e tínhamos quase a mesma linha. Éramos observadores das cenas do quotidiano, e foi assim: ele observava e recriava, e casos houve em que ele criava e eu respondia artisticamente. Foi um processo criativo fabuloso e eu tenho por mim que Manel Clarinete é um dos nossos grandes compositores. É um inspirado compositor.

CK - Estando na Praia, Cesário Duarte acaba por fundar um conjunto musical.

CD - Fui fundador do conjunto Madrugada, um conjunto acústico. Mais tarde pude adquirir instrumentos electrónicos e fundei o conjunto Africa Show. A partir de 1977 tudo foi por água abaixo. Com a dispersão dos vários elementos não era possível continuar.

CK - Que elementos faziam parte do seu agrupamento musical?

CD - Caluca, Ildo Lobo, Eusébio, Loló Graça Lima, Luís Lobo, e há nomes que não me ocorrem… não deixam de ter sido importantes.

CK - Como é que tem sido a vida artística de Cesário Duarte?

CD - Fui contra-mestre da banda  municipal da Praia, uma função que eu exerci com  paixão, porque se eu sou sapateiro, por não ter podido escolher outro, sou artista por  opção.

CK - Tem filhos que se dedicam à múisica?

CD – Sim, o Cesário Jorge que é executante da banda militar e civil, o Zé Duarte que foi vocalista e baterista do conjunto Zeca Santos, e a Djuta Duarte que vive nos EUA e está a encetar a sua carreira artística.

CK - Que pensa Cesário da produção artística em Cabo Verde?

Manel d’Novas e Anu Nobu entre os favoritos

CD - Hoje em dia, as coisas são mais fáceis. Em termos de criação artística não há nada de especial. Com duas quadras  já temos música. Isto revela uma pobreza criativa sem paralelo na nossa história musical. Outrora…olha que isto não é saudosismo, havia rigor e sentido estético. É só ver as composições de Lela de Maninha, Manel Clarinete, Luís Morais, Manel d’Novas e tantos e tantos outros.

CK - Qual é o seu compositor preferido?

CD - Manel d’Novas tem um lugar especial. Anu Nobu era um outro fabuloso artista. Mas a lista é longa. Cabo Verde sempre teve bons compositores e intérpretes, e falando de intérpretes eu gosto de Marino Silva, Fernando Quejas, Bana, Ildo Lobo, Titina, Cesária Évora.

Da Rádio Clube ... ao grande sonho do CD

CK - Foi o artista residente da rádio Clube…

CD - Naquele tempo ia gravar quase todas as semanas. Era o tempo das famosas bobines. Eu tocava ao vivo também. Era tempo em que a música era a expressão mais envolvente e mais apaixonante. Não sei se seremos capazes de recuperar essa cultura. Hoje os tempos são outros…

CK - Gostaria de poder gravar?

CD - O sonho ainda está intacto. Falta-me possibilidades, é claro. Estou vivo ainda e quem sabe? Por enquanto, o sapateiro está a comandar a vida da música. O meu ganha- pão é este – tratar dos sapatos. O dinheiro não circula. A resignação maior é saber que eu sou um homem feliz. Falo de sonhos, mas é bom dizer-lhe que a idade pesa. Fiz 80 anos, pude celebrar com aqueles que me amam esta data que para mim é memorável, mas tenho de lhe dizer: a idade já pesa. Todavia, ainda conservo alguma energia e sentido de humor.

Cesário faleceu na tarde de quinta-feira 11 Dez. 2014.

Jornalista António Silva Roque

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